quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Um Lugar Reservado no Céu

Vicky Tavares
Foi à mãe que o levou para a Instituição para que ele tivesse um atendimento melhor. Sua carga viral era alta e precisava de tratamento adequado, tomar remédios em horário britânico e ter uma alimentação balanceada. Ela ouviu falar da Vida Positiva e trouxe o menino que na ocasião tinha sete anos.

Tímido, pouco falava. Trazia-o bem cedinho e pegava já no final do dia, depois de alimentado e devidamente medicado. A família veio do Maranhão. Ela havia se casado novamente. O casal também tinha o vírus HIV. Moisés (assim vou chamá-lo), não teve dificuldades em se adaptar. Logo ganhou peso e já começava a ficar sorridente. Estudioso, fazia os deveres sem precisar mandar.

Moravam em Val Paraíso. Naquela época o Vida Positiva estava em Taguatinga. Nos primeiros meses ficou fácil porque ainda não tinha começado a chover. Depois, começou a ficar difícil trazer Moisés. Então aconselhei a mãe a ir aos órgãos legais e pedir autorização para o acolhimento. Foi feita a solicitação, mas infelizmente por questões burocráticas o processo demorou demais.

Ela foi cansando da luta diária e um dia me procurou para dizer que não aguentava mais. Era longe, além de que a mãe também andava bastante debilitada por conta do Vírus. Fiquei muito triste e Moisés também. Ficamos abraçados durante muito tempo chorando, até que ele saiu da casa soluçando. Liguei várias vezes para o celular dela (o único contato que tínhamos), mas não conseguia falar com eles.

Passado dois meses ela e o marido me visitaram, me informando que iriam morar no Maranhão, já que não conseguiam o acolhimento da criança. Perguntei pelo menino e ela me informou que estava bem. Pedi um telefone para falar com Moisés, eles disseram que não tinham. Pedi que ele me ligasse porque estávamos com saudades. Quando saíram comentei com a funcionária ao meu lado: “Que pena, aqui ele estava tão bem. Sinto muito em vê-lo partir”.

Alguns meses se passaram, recebi um telefonema da Polícia para que eu comparecesse para  depor sobre Moisés. Muito assustada corri para a DCA - Delegacia da Criança e do Adolescente. O agente então começou a me fazer perguntas: Quanto tempo ele ficou na instituição? Por que saiu? Em que época ficou lá? Entre aquele monte de papéis, a solicitação de acolhimento era um deles.

Expliquei tudo o que aconteceu que infelizmente ele não havia sido acolhido. Até que recebi uma das piores notícias da minha vida, fiquei chocada com o que ouvi do policial. A mãe e o padrasto haviam matado Moisés a pauladas e jogado o corpo da criança em um poço. Os vizinhos sentindo o mau cheiro chamaram a polícia.

Os pais confessaram o crime. Na tarde que ela nos visitou já tinha cometido este ato horroroso. Foi um dos piores dias que tive. Saí da Polícia, em estado de choque. Entrei no carro em prantos. Como pode? O que leva uma mãe a fazer isso? Não estou aqui neste mundo para julgar ninguém, mas durante muito tempo  fiquei revoltada.

Há poucos dias, arrumando a pasta de certidões de nascimento vi a cópia da dele. Abracei-me a ela e chorei de soluçar. Quando levantei a cabeça, olhei para o céu, e pensando nele  tive a sensação de ver um anjo passando.


Um comentário:

  1. Isabela de Oliveira9 de dezembro de 2011 14:02

    Nossa, Dona Vicky. Muito emocionante essa história, me deu um nó na garganta e um aperto enorme no coração. Fico feliz por você existir!

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